sábado, 28 de março de 2015

Sonhos de um sorvete de verão

Terça-feira. Odeio terças-feiras desde que o conheci naquela tragicamente bela terça-feira. E o pior: estou no mesmo lugar. Por que meus amigos tinham que escolher logo esse McDonalds para comer? Tem tantos, tantos. E aqui estamos nós, e o pior, numa mesa ao ar livre.
Escolho uma cadeira estrategicamente de costa pra rua para se ele passar eu não ver, mas mesmo assim sempre dou uma disfarçada e olho. Ah, eu odeio como meu corpo me trai... Eu aqui querendo não vê-lo e minha cabeça fica virando. Não sei o que odeio mais: não querer vê-lo e ficar virando pra olhar ou ele não passar.
Então, eu me distraio totalmente, finalmente um assunto em que me faça esquecer dele, e dai sinto uma mão no meu ombro e uma voz fala "oi". E eu congelo, antes mesmo de ver quem é, porque eu já senti o cheiro, e merda, é o cheiro dele.
Eu não quero virar, mas se eu não virar tenho medo de não saber se estou delirando.
Então eu olho pra cima lentamente... Primeiro a mão, e já reconheço a mão que seguei por horas no cinema, mas ainda tenho a esperança de não ser ele, ah, todo mundo tem mãos, certo? Porque essa tem q ser a dele? E ai o braço, e já posso ver a camisa dele. E finalmente o rosto, merda, é ele. Droga, droga, droga, droga!
O que eu faço? O que ele disse? Ah, ele disse "oi". Vai, responde rápido.
- Oi - digo em uma voz q nem eu reconheço. Limpo a garganta e tento de novo - Oi.
Agora sim.
Ele sorri. Oh, fuck, por quê? Por quê?
- Tudo bem?
Desde que você foi embora, ou antes? Por que antes tava tudo bem, agora nem tanto.
- Sim, sim, e com você?
- Bem, também.
- Ótimo, estamos todos bem.
Só que não, ne querido.
Ele fica um tempo me olhando, segundos, mas parece anos, e ver ele me olhando assim parece que estou nu na frente dele. Desvio o olhar, o pessoal da mesa esta olhando pra gente. Dou um olhar significativo pra minha amiga para ela parar de encarar, ela entende e volta a conversa com o pessoal, distraindo todos. Uma coisa boa pelo menos.
Ele limpa a garganta e diz
- Posso falar com você?
Hum, isso é novidade. Ele tomando iniciativa. Quem é você e o que você fez com meu Luiz? Apenas.
-Ah, claro.
Levanto e caminho com ele ate um lugar longe dos meus amigos. Encosto em uma pilastra e ele para de frente pra mim. Tento me manter calmo, como se não me importasse com o que ele tem pra dizer.
Ele limpa a garganta, olha pra baixo, passa a mão no cabelo, olha pra mim e da um sorriso nervoso.
- É, faz um tempo que a gente não se vê, né?
Isso não parece uma pergunta, mas mesmo assim eu respondo.
- Sim, bastante tempo.
E o silêncio constrangedor aparece de novo, estou começando a achar isso divertido e um pouco irritante, mas não vou ajudar ele, se é ele quer dizer algo, ele q ache um jeito de dizer. - Como esta a vida? Alguma novidade? Namorando?
Uau, uau, muitas perguntas de uma vez. Mas pelo menos ele tem interesse na minha vida romântica.
- Ah, estou vivendo. Cê sabe nunca tenho novidades. E estou saindo com alguém, mas nada muito serio.
Minto. Ah, qual foi? Só foi pra ele não pensar que eu fiquei esse tempo todo esperando ele, ou pensando nele. E eu ate sai com alguém. Ta foi só uma vez, mas mesmo assim, não estive pensando nele o tempo todo... Só 12 horas por dia, muito saudável até, exercita a mente...
- E você? - Pergunto a ele
Isso foi bom. Não especifiquei o que quero saber, mas dei uma dica que quero saber sobre ele.
- Ah, vivendo também, e como você sabe não tenho muitas novidades. E, não, sem namorado.
Hum, interessante. Sem namorado, parando na minha frente, tomando iniciativa, isso ta sendo um dia louco.
- Que bom... Que você esta bem. - digo a ele.
- Ah, é. Sim, sim.
Silencio constrangedor de novo. Ele balança a cabeça, como se tivesse tomado uma decisão.
- É que... É que eu queria saber se você quer sair comigo?
Uau, inesperado, totalmente inesperado. Rio e digo
- "queria"? Não quer mais saber?
Ele rir
- Quero. Quero saber.
Mas é ai, que minha raiva aparece.
- E por quê?
Ele me olha com cara de confuso.
- Como assim? - ele diz.
- Ué, depois de tanto tempo, volta e der repente quer sair comigo. Por que?
Ele começa a gaguejar o que só faz dele mais fofo.
- Ah, sei lá... Quer dizer, eu sei. Não... Não pensei muito bem. Desculpa isso foi idiotice, eu vou embora, desculpa te atrapalhar e tomar seu tempo.
Agora eu que estou frustrado.
- Oh meu deus, isso é tão típico de você. Quando finalmente toma uma decisão, e as coisas não vão como você esperava, você foge, simplesmente. Você tem que se decidir. Você quer ir ou ficar? Só palavras não bastam, Luiz. Faça, faça algo.
E então olho pra ele, e ele esta completamente em choque, bem, isso faz dois de nós. Eu nunca pensei que teria coragem de dizer isso tudo pra ele.
E dai aconteceu tudo muito rápido. Uma hora ele estava na minha frente, com cara de assustado, e em outro momento, ele me agarrou pela cintura e pressionou seu corpo mais contra o meu, de modo que, literalmente não tinha mais espaço nenhum entre nos. E me beijou, duramente e fortemente, de um jeito romântico e ao mesmo tempo sexy. Não tente entender, acho que só experimentando pra você saber.
E ele me beijou por uns 2 minutos, e dai se afastou, mas ainda me segurando. E agora com pouca respiração e ainda delirando eu olho pros lados, todos estão nos olhando, ate meus amigos estão olhando. Eu sorrio as vendo fazendo bobeiras e comemorando. Olho pra baixo e olho pra ele. Ele sorri se afasta, porém continua segurando minha mão.
- Bem, eu quero ficar, e quero você. Então, por favor, sai comigo?
- Sim, eu adoraria sair com você.
- Ótimo.
- Sim, ótimo.
E nesse momento, nosso "ótimo" é nosso "okay".
-Bem, eu tenho que ir agora, meu amigo tá esperando. - ele fala
- Sim, tudo bem, entendo.
Ele me abraça e vai embora.
Sim, esse definitivamente é um dia louco.

Texto por Cassy Silva

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